O começo do fim

Tentando escrever para a abertura do blog me peguei repensando em todo o quadro da crise. E quanto mais eu depurava o pensamento mais nas ideologias eu pensava. Chegamos, pois, a tres idéias basicas. Tres fios condutores das teorias que se colocam nessa crise:

- A teoria neo-classica, onde tudo é controlado pela “mão invisível” do mercado. Pelas forças do livre mercado. Vale dizer, o mercado sozinho se regula, ou seja, não permite que as coisas se degringolem ao ponto de uma crise - seja ela grave ou não. Ou ainda, que as crises são evitadas antes que elas aconteçam uma vez que, como os “geneticamente” proplemáticos serão eliminados assintosa e sistemáticamente pelos agentes do mercado, os agentes não poderão se tornar grandes o suficiente para perturbar o mercado e serem geradores das crises.

- O pensamento keynesiano que entende que as forças de mercado, embora sejam auto-reguladoras, podem se regular sim, mas a um nível baixo demais para o pleno-emprego que, diga-se de passagem, é o fundamento de todo pensamento teórico economico. O pleno-emprego deve ser atingido porque é ele que traz todos os benefícios para os seres humanos. Eleva o produto para o bem estar das pessoas. Deve-se sempre ter em conta que as pessoas - e não máquinas (capital) - que devem ser pensadas enquanto teoria. Assim, o estado de pleno-emprego se justifica. E só pode haver pleno emprego quando as crises não se instalam. Portanto, Keynes entendia que só quando o sistema financeiro é direcionado para a produção de pleno-emprego é que o mercado é beneficiado. Assim exige-se, portanto, que os mercados financeiros sejam extremamente bem regulados e vigiados constantemente. Um detalhe: a constante vigilância se justifica porque, mesmo dentro da lei - e estamos vendo isso nesta crise - os mercados podem arrumar meios e brechas legais para que o capital se desvie do sistema produtivo para o sistema puramente financeiro-especulativo e, portanto, desviando-se do objetivo do pleno-emprego.

- E, não menos importante, o pensamento marxista, onde as crises são explicadas pela mecânica da acumulação do capital. Do desequilíbrio que existe entre as forças de produção e os meios de produção tendendo, para este último, o resultado do pleno-emprego. Em outras palavras, para Marx, os donos dos meios de produção sempre tendem a tirar uma parte dos ganhos no processo de produção para sí. Para seu próprio benefício. Portanto, para seu próprio uso do produto resultante da produção. Como esse excedente se estende para além do necessário para a subsistência - e luxúria - do dono do meio de produção, este tende a reinvestir a sua sobra nos próprios meios de produção ampliando, assim cada vez mais, a acumulação do excedente produzido. Por esta visão, alcança-se o pleno-emprego, contudo, os benefícios são tendentes a uma pequena parcela da população. Nesse processo de acumulação os mercados são exauridos e se tem a crise, pois a acumulação tende, até por intuição podemos ver isso, a criar uma divisão de classes: Os explorados e os exploradores. Fica obvio que, a qualquer momento, os explorados tendem a se rebelar. A solução para esses problemas geradores tanto de crises sistemicas e periódicas e, ao mesmo tempo, distribuir os produtos resultantes dos processos de produção é que nenhum agente privado tenha a posse dos meios de produção. Aparece então a figura do estado que, sob sua tutela, restaura o equilíbrio planejando e direcionando os processos de produção e os bens necessários ao pleno-emprego com uma distribuição equitativa do produto.

Tendo essas tres teorias em mente, vamos rever o quadro da crise:

1- A crise se instaurou num ambiente de livre-mercado. Portanto, a premissa de que em um mercado livre os agentes causadores das crises são eliminados parece que não foi bem sucedida.

2- Os agentes provocadores da crise foram aqueles que estavam financiando todo o crescimento anterior à crise gerando as bolhas nos mercados. Logo, foram os mercados regulados que se auto-desregularam e descambaram nessa crise. A princípio Keynes estava certo. Contudo, para onde iriam os mercados produtores quando já estavam globalizados ? Invariavel e lamentavelmente teriam de ir para o mercado financeiro, pois não havia mais mercados a explorar, o que nos leva à outra teoria.

3- A coisa mais interessante (pelo menos enquanto escrevemos este artigo) é que todas as medidas adotadas vêm da teoria marxista. Se não, vejamos: Estatização de bancos, o estado planejando e entrando massivamente na economia e os prejuízos socializados. Logo, podemos concluir que, para os pensadores do sistema capitalista, Marx estava certo.

Contudo, a crise ainda não acabou.

Portanto, fiquemos atentos para as cenas dos próximos capítulos dessa sopa de ideologias.

Enquanto isso fica aqui uma pergunta:

Que ideologia é essa que, quando se trata de salvar um sistema claramente desigual, provocador de crises, que não consegue se manter com sua própria ideologia, se apoia em qualquer outra só para livrar a sua pele, o capitalismo, onde até Marx está valendo ?

Minha resposta hobiana: “O homem como lobo do homem !” E isso não tem nada a ver com ideologias e sim com vergonha na cara !

Que fique registrado que, na presente crise, os malefícios provocados foram tão profundos que as medidas adotadas podem ainda ser consideradas anemicas. Contudo, corretas. Simplesmente não havia mais o que fazer. Era intervensão ou morte.

Registro aqui tambem, uma analise para pós-crise: Os mercados, após as crises, tendem a se fechar. Portanto, o protecionismo deve ser a tônica para daqui uns 2 ou tres anos ! Outro fator a ser mencionado é de que, com as medidas adotadas para salvamento do sistema financeiro, o sistema capitalista deixou claro que “quanto maior voce for, mais importante - e inquebravel - voce será”, portanto, parece claro que haverá um movimento monopolístico nos próximos anos e, é claro, será gerador de crises mais constantes, maiores e mais profundas.

Como disse, aguardemos as cenas dos próximos capitulos ! Talvez estejamos vendo o início do fim do sistema capitalista. Pelo menos como o conhecemos !

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